terça-feira, 27 de setembro de 2016

O Drive in



Tenho ainda bem presente no acervo das minhas recordações, o roteiro sentimental que me leva às vivências quotidianas da minha geração, a fazer-me lembrar quanto fomos felizes naquela terra, onde o calor, as paisagens e as gentes de todas as raças, tornaram a antiga Lourenço Marques numa espécie de paraíso na terra. Para lá do trabalho, estudos e convívio, havia sempre tempo para os hobbies e diversões. Restam poucas dúvidas sobre a paixão que os laurentinos nutriam pela multiplicidade da prática de modalidades desportivas, música e cinema. É concretamente para o cinema que eu me direciono, lembrando o ritual das matinés frequentadas maioritariamente por estudantes até aos 17 anos de idade, classificação máxima que nos aproximava do estatuto de pequenos adultos. Recordo-me que no início dos anos letivos ao adquirirmos o material escolar nas papelarias, havia lugar à oferta de pequenos blocos, mata-borrões, calendários escolares e, o inevitável Bilhete de Identidade para teatros destinado a estudantes, que teria que ser preenchido nos espaços vazios, a colocação da necessária fotografia e que teria validade, depois de autenticado nos estabelecimentos escolares e visado pelas casas de espetáculos. Havia em Lourenço Marque, muitas salas de cinema, desde o velhinho Varietá  (demolido na década 60) até aos modernos estúdio 222 e o Dicca. As grandes novidades da chamada sétima arte, vinham da vizinha África do Sul e depressa chegavam às muitas salas de cinema da capital, verdadeiro ponto de encontro da juventude. A história do cinema não ficou só circunscrita aos cineteatros , associações e alguns salões paroquiais, locais de projeção de muitas fitas. No ano de 1972 os americanizados drive-ins já implantados em Johannesburg , ditaram a construção de um moderno drive in que viria a ser implantado no recém criado Bairro de Benfica, zona arredora  e futuro dormitório da cidade de LM. Para quem não se recorda, ficava na estrada nacional que ia do Bairro do Jardim até à Vila de Marracuene, passando pelo Bairro do Choupal. Numa zona aterraplenada para o efeito, foram traçadas várias pistas em anfiteatro, devidamente sinalizadas, destinadas ao aparcamento dos veículos, permitindo que se pudesse assistir aos filmes, dentro do interior dos automóveis. A banda sonora da película em exibição, era disponibilizada através de auscultadores fixados em suportes metálicos. Nas noites mais cálidas, os assistentes podiam  observar a sessão sentados em cadeiras de lona, ao ar livre. Incómodo, só mesmo o aparecimento dos indesejáveis mosquitos. O Drive in permitia que fossem servidas refeições “fast-food” , fornecidas pelo restaurante do recinto. Na parte avançada do espaço, figurava o  ecrã  gigante onde era projetada a película. O parque do Drive in registava grande afluência de público, um tanto pela inovação de ver o cinema de uma outra  perspetiva.  Na bilheteira era cobrado à entrada um montante pela entrada do veículo e, uma importância por passageiros transportados, despesa bem superior ao que se pagava então para se ir assistir a um filme, numa sala de cinema tradicional. Por algumas vezes, tive a oportunidade de na companhia de amigos me deslocar ao Drive in, para assistir a películas que acabavam de fazer furor, nas melhores salas de espetáculos da Europa. Seguramente o Drive in, era um cenário ideal para jovens namorados ou casalinhos, verem cinema de uma forma mais intima. Citando Richard Hollingshead Jr. o grande mentor da ideia, o cinema ao ar livre foi como encontrar a forma feliz de ver grandes estrelas, debaixo do espaço celeste cheio delas. Também lá para o céu de Benfica,  o esplendor do luar e as estrelas cintilantes quebravam o breu da noite que se abatia sobre o bairro, parecendo observarem o desempenho dos grandes astros de Hollywood , na tela gigante do Drive in. Aquele lugar de sonho, fará para sempre parte do espólio das minhas memórias, numa cidade onde o modernismo e o progresso, eram uma constante da vida.

Manuel  Terra

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Praça Mac Mahon




À medida que o tempo vai avançado de forma implacável e, os cabelos brancos se vão acentuando, mais saudosos nos tornamos do tempo que já não volta, do qual guardamos recordações irradiantes de uma época, de onde ficou um pouco de todos nós. É um passado tão rico de vivência, que as recordações emergem a todo o momento. A evocação de hoje vai para a Praça Mac Mahon (atualmente  Praça dos Trabalhadores). Que saudades do remoto ano de 1958, quando aportei à antiga Lourenço Marques, na companhia da minha mãe, irmão e demais familiares. No Cais Gorjão esperávamo-nos o meu saudoso pai, que para lá embarcara dois anos antes. Foi em festa (como sempre acontecia) que o paquete Angola foi acolhido. Depois do desejado reencontro, foi tempo de se recolherem as bagagens  e palmilhar pela zona portuária ,até ao amplo portão de ferro e pisar o asfalto da Terra Prometida . Lá estava como que nos abraçando, a Praça Mac Mahon, outrora Praça Azeredo quando no início do século XX se edificou sobre um terreno pantanoso de poeira avermelhada, que a mão do homem soube transformar, na altura em que se esboçava o plano de urbanização  e expansão da cidade. Era efetivamente a praça mais emblemática da cidade, embelezada pela sua estação dos caminhos de ferro de traça invejável inaugurada em 1916, um monumento de excêntrica conceção constituído pela sua fachada ornamentada  com uma cúpula bem trabalhada em cobre, mas que o verdete lhe emprestava uma cor esverdeada, nada despropositada. Dois blocos simétricos de dois pisos, completavam-na . Uma obra prima da criatividade do arquiteto português Alfredo Lima que trabalhou em equipa com Mário Veiga e Ferreira da Costa e, que por vezes erradamente alguém atribui a Gustave Eiffel. Cem anos depois, a justa consagração como a mais bela estação do continente africano, segundo o critério da conceituada revista norte americana Newsweek, que também a definiu como a sétima mais bonita do mundo. Das suas várias gares partiam composições para a Suazilândia, África do Sul e Rodésia (hoje Zimbabwe)  as chamadas linhas internacionais e para Goba,  Ressano Garcia e Limpopo das linhas internas. Em exposição encontravam-se duas velhinhas locomotivas a vapor e, segundo o que me dizia um velho amigo, por lá esteve uma locomotiva que circulou no Norte, concretamente uma Michelin, que tinha a particularidade de ser equipada com pneus de borracha de aderência aos carris.  A Praça Mac Mahon era também o términus das várias carreiras dos machimbombos municipais, que demandavam à Baixa. Bem no centro da praça, situava-se a estátua de homenagem aos mortos da Iª Grande Guerra, militares que enviados da Metrópole integrados no Corpo Expedicionário a que se aliaram  moçambicanos , tombaram em combate em várias batalhas no Norte, travando as arremetidas das tropas alemãs. Em 1935 era inaugurada o monumento com cerca de 16 metros de altura, esculpido em pedra cábris( provavelmente embarcada em Lisboa) onde na parte superior estava representada uma mulher, que tinha a seus pés uma longa serpente. Histórias havias muitas, mas que no fundo se centravam à volta de uma heroína ,  que teria afogado  o réptil numa panela de água a ferver contendo papas e , que aterrorizava a população residente no pantanal. Na parte inferior, estavam localizados os painéis alusivos a quatro batalhas travadas no norte de Moçambique, onde soldados brancos e negros lutaram destemidamente contra os invasores. A base da estátua fechava em forma de círculo. A Praça Mac Mahon estava interligada com a histórica Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) por três vias de acesso, bem conhecidas dos laurentinos. A Consigleri Pedroso (hoje Rua da Revolução), que tinha logo nas esquinas viradas para praça dois prédios concebidos pelo traço do grande arquiteto Miranda (Pancho) Guedes, que deixou obra em Moçambique e nos países vizinhos, homem intérprete da arquitetura moderna, com grande liberdade criativa que projetou o prédio que conheceu duas ampliações, com esquina também para a Av. General Machado (hoje Av. Guerra Popular-que liga a Baixa à Alta)de forma fascinante. As suas varandas rendilhadas e a parede lateral trabalhada com pequenas pedras brilhantes( provavelmente  seixos polidos ) a configurarem contrastes de um vasto relevo, que inspiram motivos gráficos africanizados , quiçá influenciado pelos seus dotes para as artes plásticas. Uma autêntica obra de arte , a que o betão deu beleza. Ainda me lembro do outro ousado prédio, construído na outra esquina nos meados da década 60, em que foi necessário durante algum tempo drenar a água salgada, para iniciar a sua construção. Muitos eram os curiosos de ocasião, que observavam à distância o trabalho do potente bate estacas, que parecia estremecer tudo em redor. A Consigleri Pedroso caraterizava-se pelos seus blocos e lojas comerciais, muitas de traço colonial como os Armazéns Catoja & Saldanha, Papelaria Spanos e a Casa Fabião, a resistirem aos avanços do progresso que ia  destruindo os vestígios do passado e que só agora velhas fotografias, ajudam a perceber o que ela foi nos primórdios do século XX. A Av. 18 de Maio(Hoje Mártires de Inhaminga) era em toda a sua extensão, uma plataforma da atividade portuária, com largos armazéns pertencentes a agentes marítimos .A faixa encostada à vedação do porto era reservada à praça de camiões de aluguer, contratados para carregarem mercadoria retirada pelos  guindastes. A rua mais célebre era a Rua Araújo(hoje Rua de Bagamoyo) reflexo do que era a vida noturna de LM. Quando o sol se despedia e a noite já ia adiantada, a rua aclarava com os disparos dos néons que pareciam comandados pelo som das músicas que entoavam do interior dos cabarés, night clubes, dancings e bares americanos. Nos passeios fixavam-se placards anunciando as atrações da noite. Os noctívagos frequentadores, eram maioritariamente marujos de várias nacionalidades que ali afogavam a solidão de muitos dias de mar, mas também não faltavam os fascinados locais ,atraídos por cançonetistas, bailarinas e prostitutas. Nem só de boémia  e entretenimento vivia esta artéria, porque durante o dia estavam abertos estabelecimentos comerciais, cinemas , instituições bancárias e lá despontava o velhinho Hotel Carlton, uma referência do passado. Quando o sol raiava, a animação terminava ; a Praça despertava com o movimento da  chegada dos primeiros machimbombos apinhados até ao estribo, de estivadores que iam pegar no  turno matinal no Cais Gorjão, vindos das zonas suburbanas da cidade. Depois o bulício aumentava à medida que se aproximava a abertura dos estabelecimentos comerciais, repartições públicas e escritórios, nomeadamente os dos despachantes oficiais, justificada pela proximidade ao porto marítimo. Era local de passagem obrigatória para muitos turistas vindos de fora, que não perdiam a oportunidade de captarem excelentes instantâneos, porque na verdade motivos não faltavam. A Praça Mac Mahon fez parte do meu quotidiano, tantas foram as vezes que a calcorreie . Recordo-me que aos fins de semana, depois de assistir à sessão da meia noite , no Cinema Dicca ou nos Estúdios 222, películas que terminavam já de madrugada, localizados na Travessa Varietá transversal à Rua Araújo, eu e um grupo de amigos concluíamos a noitada num espaço de restauração de referência sito na estação ferroviária, onde às três da manhã era possível comer um bitoque com bife de búfalo, carne importada da África do Sul e beberricar umas cervejas. Quem um  dia conheceu a Praça Mac Mahon, um verdadeiro ponto de encontro de muitos laurentinos, jamais a esquecerá como um marco da história da cidade, por onde as suas gentes circulavam sem stress , entre o trabalho e o lazer.

Manuel Terra

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Mercado de Xipamanine



Os relatos que me vão chegando, do popular mercado de Xipamanine, dão conta da situação caótica do próprio bairro, em que viver no seu interior é uma autêntica aventura e, com o seu bazar a rebentar pelas costuras. Os vendedores já não encontram espaço no recinto, tornando-se por tal  cidadãos ambulantes, disputando os passeios e rotundas, dificultando o caminhar dos transeuntes e condicionando o trânsito rodoviário, provocando constantes engarrafamentos.  Xipamanine é uma espécie de terra prometida, onde muitos vendedores chegam e poucos partem, numa espécie de luta pela sobrevivência. Os produtos mais diversos são colocados no chão, sobre mantas ou esteiras e estão sujeitos à chuva impiedosa ou ao calor abrasador, colocando a saúde pública em risco. Paro por momentos para refletir e, rumo ao caminho das recordações. Lembro-me perfeitamente do popular  Mercado de Xipamanine, que tinha a particularidade de estar aberto ao domingo matinal, permitindo  aos  laurentinos a possibilidade de fazerem compras e levarem pescado fresco para o almoço. Foi edificado na década 30 e retenho a imagem de um complexo de área considerável, ladeado por um extensivo gradeamento e com a entrada principal virada para a artéria Irmãos Roby. No seu interior destacava-se as bancas para a venda do peixe, marisco e bivalves marcados pelos sabores do Índico, protegidas por uma cobertura conveniente à proteção dos postos de venda. Soltavam-se os pregões a anunciar preços de arromba e tudo acabadinho de pescar. Os compradores iam regateando e comprando. Havia depois três corredores, onde alinhavam as lojas de artesanato , louças , outros utensílios e venda de capulanas de encher o olho. Muitas bancas, onde se vendiam temperos, condimentos e especiarias indianas, num ambiente de cores, sabores e aromas que enriqueciam a sua gastronomia. Também não faltavam pequenas bancas de madeira, coberta por toldos  já descoloridos pelo tempo, onde predominava a venda abundante   de grande qualidade de frutos tropicais , como também toda a espécie de produtos hortícolas, acabados de chegar de madrugada nos autocarros do Sul do Save e dos Oliveiras, vindos das áreas limítrofes da cidade, que transportavam no seu tejadilho vasta  mercadoria . Lá se viam as chamadas gaiolas, feitas  com pequenas galhas e ramos , onde vinham as galinhas a cacarejar e os galos a anunciar o nascer do dia. Os galináceos tinham grande procura, porque eram alimentados só com produtos da terra e dai as famosas galinhas à cafreal, prato de referência em todos os estabelecimentos de restauração. Não faltava também a venda de peixe e camarão seco. Penso que havia um ou dois pequenos atelieres, onde alguns  velhos alfaiates davam ao pedal, para confecionarem calças de terylene , ao gosto da população mais idosa . A fiscalização do mercado era da competência da edilidade da capital, que velava pela boa funcionalidade do mesmo.  Quem aqui vinha fazer compras, jamais esquecerá o enorme labirinto à volta das bancas, de quem procurava comprar bem e em conta. Ir a Xipamanine , implicava necessariamente  um passeio obrigatório ao mercado, onde nada faltava e a oferta era grande. Mas Xipamanine não era só o seu  o seu mercado, mais do que isso um imenso bairro central, onde convergiam os bairros da Mafalala, Chamanculo, Jardim e do Aeroporto. Caso para dizer ,que todos os caminhos iam ter a Xipamanine. Frente ao mercado, um enorme espaço para estacionamento e manobras ,de cargas e descargas . Figuravam também dois prédios, estando num  deles instalada uma casa de pasto, com vasta clientela.  À frente eram visíveis as paragens dos machimbombos municipais da linha 7 e 19, respetivamente com trajetos para a Praça Mac-Mahon  e Liceu Salazar (hoje Josina Machel). Ao fundo do mercado, distinguia-se um centro comercial, que agregava uma grande concentração de lojas, propriedade de comerciantes hindus , que vendiam tudo o que se relacionasse com vestuário e calçado.  Exibiam nas montras, os famosos tecidos de Caxemira e as finas sedas de Macau. Os comerciantes eram talentosos na arte de vender, que ganhava maior ênfase com a paciência beneditina, apanágio de quem estava por trás do balcão. Os compradores davam-lhe luta e isso agradava-lhes porque o cliente haveria de ser aviado , beneficiando na compra de um pequeno desconto e muito vezes até de um brinde. Numa travessa junto a um muro lateral do mercado, encontrava-se o Cinema Olimpia, onde na década 70 passavam as  grandes películas românticas originárias da India , com a sua música tradicional, obrigando a exibição dos filmes por norma a dois necessários  intervalos. No final , quando as luzes da sala de espetáculo se acendiam, era ver a plateia feminina mais sensível, a enxugar as lágrimas, com os lenços tirados nervosamente das carteiras.  Na verdade , o cinema Olimpia fez história e os seus filmes furor.  À volta do mercado, também não faltava a escola primária , frequentada por centenas de alunos, um posto médico municipal que assistia as populações de Xipamanine e outras áreas. Na traseira do mercado, lá se achava o velhinho campo de futebol, onde muitas estrelas do pontapé na bola  que viajaram para Portugal Continental , oriundas da antiga LM, mostravam o seu talento em jogos entre amigos ou clubes populares de bairros. Nos primórdios da década 70, era lá que treinava o Nova Aliança, equipa que dava nas vistas no campeonato distrital. Hoje ao que me dizem o recinto foi ocupado por vendedores ambulantes, que disputam a palmo o terreno. Recordo com nostalgia as inúmeras vezes que me desloquei até Xipamanine , transitando desde o emblemático  Largo José Albasini(hoje Praça 21 de Outubro), para a Rua dos Irmãos Roby, vasta artéria asfaltada, já na época com infinito  trânsito nas horas de ponta,  que terminava junto ao popular bazar . Direi que Xipamanine e o seu mercado eram faces da mesma moeda e, hoje tão longe no tempo e na distância, jamais se apagará do meu imaginário, a simplicidade , o sorriso e os olhos risonhos, estampados nos rosto dos  seus vendedores e dos habitantes da grande urbe suburbana . Afinal Xipamanine era o tal grande dormitório da cidade, onde o entardecer era tardio e o amanhecer, cedo de mais.

Manuel Terra

sábado, 7 de novembro de 2015

A Escola Técnica Major Joaquim Araújo




Num dia destes senti-me por algum tempo, num desafio à reflexão quiçá tocado pela nostalgia,  obrigado a exercitar a memória numa espécie de viagem a belos momentos que passo a evocar, tocado por uma levitação em que cada pormenor se encaixa como num puzzle. É por essa visão que eu caminho em direção à Escola Técnica Elementar Major Joaquim Araújo(hoje Escola Secundária Estrela Vermelha)e por diversas razões. Primeiramente porque aquele estabelecimento escolar, se situava a pouco mais de uma centena de metros da casa onde habitava. Dada a aproximação, sentia o soar das campainhas como algo familiar. Fui crescendo, como foi ganhando visibilidade a imponente construção, talvez das mais ousadas do parque escolar do espaço português. Foi inaugurada com pompa e circunstância no longínquo ano de 1963, com a implantação de um moderno padrão de arquitetura que assentava no chamado Movimento Moderno Internacional, baseado na conjugação de fatores climáticos. Recordo que para levar a efeito a gigantesca obra, foi necessário interromper a Av. 31 de Janeiro( hoje Agostinho Neto) terminando por ali a citada artéria e veio a ocupar o espaço da Albergaria Municipal, lugar que servia de garagem para as viaturas municipais de recolha de resíduos sólidos e ambientais , como também foi eliminado o velhinho campo de futebol do Grupo Desportivo 1º de Maio, onde pela mão do meu saudoso pai ia assistir aos jogos do campeonato distrital e outros desafios. O portão principal com o distintivo da escola, localizava-se na Av. J. Serrão (hoje Emídia  Daúde), mesmo defronte do edifício da Sociedade Protetora dos Animais. Era ladeada pela Av. Luciano Cordeiro(hoje Albert Luthuli)e pela Av. General Machado (hoje Guerra Popular) e terminava na Av. Gomes de Freire( Paulo Samuel Kankhomba). O outro portão aberto, durante as horas úteis , servia o parque de estacionamento destinado ao corpo docente e funcionários. Mesmo em frente, lá estava o hangar dos machimbombos municipais. A localização da Escola tinha como base servir a grande área suburbana da cidade, resultando desse fator a frequência de milhares de alunos de todos os extratos sociais, acabados de concluir a antiga quarta classe. Nenhum aluno do sexo masculino poderia entrar para o interior da escola sem envergar à entrada um blusão azul ,exigindo-se às  alunas  o uso da  caraterística bata branca. Uma medida que visava de alguma forma, minorar qualquer referência social que pudesse ser descortinada no uso de vestuário, situação prevista no regulamento interno da escola. Logo à entrada , um pequeno gabinete onde pontificava à porta o Senhor Marques, chefe dos contínuos e sempre observante  das  traquinices própria da nossa irreverência. Quando ultrapassava-mos as marcas, lá vinha o tradicional carolo tarimbado pelos seus dedos espessos. Ao lado um pequeno posto de enfermagem, destinado à visitadora a quem cabia a vigilância de problemas de saúde da população escolar. Contiguamente o gabinete do diretor, sala dos professores, a secretaria e creio as instalações da biblioteca, onde fazíamos fila para requisitar os livros de aventuras da escritora Enid Blyton. Intercalado entre os pavilhões à esquerda e direita, constituídos por edifícios de três pisos com largos varandins , estendia-se um longo passadiço coberto que findava junto às oficinas de trabalhos manuais e o bar-refeitório, sempre apinhado no intervalo do lanche matinal. Esse largo corredor era uma espécie de passerelle , por onde circulavam nos intervalos, grupinhos de rapazes e raparigas trocando olhares matreiros. Descendo os últimos degraus, deparavam-se as salas de desenho e antes de se direcionar para a zona dos ginásios e balneários, o moderno auditório em anfiteatro para as aulas de canto coral, onde subíamos os seus degraus entoando as notas musicais. Havia depois um escadario mais acentuado em direção ao parque desportivo. Mas se bem se lembram alguns, existia entre os ginásios e o auditório um grande largo alcatroado, onde às sextas feiras à noite , eram projetados ao ar livre, filmes para os alunos e seus familiares. As mais de cem cadeiras ali expostas, esgotavam-se rapidamente, assistindo ainda muitos de pé ao desenrolar da película. O patamar inferior da escola era reservado na totalidade para a prática desportiva. Para além das pistas de atletismo, havia rinques e num deles chegou-se a jogar hóquei em patins. A sua bela piscina, onde eu e os meus irmão aprendemos a nadar, nas férias escolares, dado que havia por parte do conselho diretivo, abertura para comunidade mais jovem aproveitar da melhor forma, o tempo de descanso. O recinto para a prática do basquetebol( hoje muito degradado tal como a escola) traz-me à lembrança as muitas partidas disputadas quase em catadupa, pela malta do bairro e arredores, que nos interregnos dos períodos escolares, começavam pela manhã, prosseguiam à tarde e só findavam nos limite das forças. Como uma bola fazia a felicidade de todos. Abstraindo-me agora da zona desportiva, subo novamente o escadario e revejo-me como se fosse hoje, no espaço dos pavilhões (oficinas) de trabalhos manuais. Para além da aprendizagem de várias disciplinas, era ali que começávamos a crescer paulatinamente para as artes. Aprendíamos o bom manuseamento das ferramentas de trabalho e, executávamos belos trabalhos em madeira, ferro, cartão e arame, dando expressão à criatividade que brotava do interior de cada um de nós. Quase todos fizemos com especial carinho, o livrinho de autógrafos ainda hoje guardados religiosamente em qualquer baú, assinados por colegas, professores e namoradas do nosso imaginário. Ainda me lembro da minha velhinha serra de rodear, utilizada para trabalhos em  contraplacados e que tínhamos de levar de casa. Frontalmente às oficinas ,ali estava recolocada uma árvore frondosa, circundada por uma proteção em forma de manilha, recuperada da artéria que foi necessária encerrar. Ao fundo um coberto, onde nos intervalos jogávamos ao lenço e a grande área térrea, onde era comum jogar ao berlinde, caraterizada pelas inúmeras rubras acácias que contrastavam na perfeição, com o vermelho das folhas das plantas hibísceas  entrelaçadas pelos os arames, que serviam de vedação para o passeio público. Concluída esta passagem por salas e corredores, para trás ficaram momentos muito especiais a marcarem a nossa transição escolar, para o ensino comercial e industrial. Apesar do pouco tempo que fui   discípulo da Joaquim de Araújo  e, que te tive como vizinha amiga e companheira, jamais esquecerei que um dia fizeste parte da minha vida.

Manuel Terra

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A Seleção que prestigiou o Hóquei Moçambicano





Por alguma razão as recordações são sempre cativas da memória, que se libertam com fascínio  e navegam na crista de quem conversa ou evoca ciclos pejados de acontecimentos, que jamais se poderão encerrar como cortina corrida sobre qualquer janela. Da bruma do tempo, saltita-me a propósito do estágio em Portugal da seleção de hóquei em patins de Moçambique antes de partir para o Mundial de França, a célebre participação de uma seleção de hoquistas de Lourenço Marques ,para representar Portugal no Torneio de Montreux  na Suíça em 1958. A década de 50 ficou marcada pela afirmação do hóquei em patins luso no panorama mundial, mas em Moçambique essencialmente as equipas da capital começavam a dar nas vistas, face às grandes exibições relevantes conseguidas na digressão à Metrópole, onde o Sport Lisboa e Benfica e Seleção de Lisboa, vergaram perante a classe e talento da seleção de LM. A paixão pela modalidade entranhou-se nos laurentinos, face aos sucessos conseguidos e o momento de êxtase levou a que o Clube Ferroviário local integrasse  nas  festas da cidade, a Seleção da Catalunha espinha dorsal  do conjunto espanhol, convidada a participar na  capital moçambicana num torneio alargado . Os” nuestros hermanos”, talvez convencidos de que iriam ter umas merecidas férias em África , foram surpreendidos pela qualidade do hóquei praticado na pérola do Índico e, no jogo derradeiro  frente à Seleção de LM que teve lugar no Pavilhão do Malhangalene(hoje Pavilhão Estrela Vermelha) à época o único recinto coberto e com o piso revestido a taco, a lotação esgotou e o público vibrou com a retumbante vitória por (5-1) frente aos experimentados hoquistas espanhóis. Se porventura algumas dúvidas existissem sobre a transcendência da modalidade em Moçambique em relação ao nível praticado na Metrópole , a verdade é que as exibições e os resultados deixaram uma mensagem objetiva de que na então Lourenço Marques, morava o melhor hóquei patins praticado no Mundo. Como não poderia deixar de ser, o sucesso ganhou eco tal a forma como a rádio e a comunicação social  o realçaram, enchendo páginas dos jornais a evocarem o interesse nacional de serem chamados à seleção nacional, os atletas ultramarinos. Com os canhões a trovarem, a Federação Portuguesa de Patinagem como que num teste de aferição, enviou então para o Torneio de Montreux a terceira no ranking da modalidade, a seleção dos hoquistas laurentinos até terras helvéticas. Integraram a comitiva, Souto, Abílio Moreira, Bouçós, Carrelo (irmão de Acúrsio guarda redes de futebol, do FC do Porto e também hoquista), Velasco, Fernando Adrião, Romão Duarte, Vítor Rodrigues  e os guarda redes Passos Viana e Moreira. Na bagagem carregaram a palavra esperança, o mesmo ideal que alastrou por toda a população de Moçambique .  Com a FPP a esperar para ver, a seleção a representar Portugal foi-se desvencilhando dos adversários diretos até à desejada final com a congénere espanhola, ávida de desforra. O desejado ajuste de contas foi fatídico para as cores do cinco de Espanha, que a vencerem com dois golos de avanço devem ter esfregado as mãos de contentes, só que jogadores de grande gabarito como Velasco , Adrião e companhia levaram  as suas faculdades ao extremo , deram show e arrebataram o troféu vencendo por (4-2). A imprensa desportiva da modalidade, rendeu-se à classe e poderio dos laurentinos. Em Lourenço Marques, a seleção foi recebida em ambiente de apoteose no velhinho aeroporto de Mavalane e, transportada para o edifício da Câmara Municipal para a justa consagração. Foram uns autênticos heróis, que jamais serão esquecidos na história do hóquei português. Doravante passaram a ser chamados por mérito próprio , às convocatórias dos Campeonatos da Europa e do Mundo. Recordo com muita saudade os célebres relatos das produções Golo, com os radialistas a gritarem os golos de Velasco e Fernando Adrião. Os rádios transístores estavam na moda e era só ver a malta com o retângulo sonoro colado ao ouvido, a rejubilarem com os seus ídolos. Em LM criou-se uma espécie de hóqueimania , com os jovens da minha geração a jogarem hóquei nos largos passeios, recorrendo a sticks improvisados e trabalhados por nós e, uns pequenos barrotes de madeira a servirem de balizas. Poucos eram os que tinham patins, mas isso não era muito importante. Os transeuntes eram tolerantes e até paravam para nos verem jogar. Lembro-me do velhinho ringue do SNECI(Sindicato dos Empregados do Comércio e Industria), mesmo defronte do moderno prédio dos SMAE(Serviços Municipalizados de Água e Eletricidade), um verdadeiro ninho de grandes hoquistas, assim como o ringue do Desportivo, Ferroviário, Irmãos Maristas e da grande cratera do Instituto Mouzinho de Albuquerque na vila da Namaacha. Tenho na retina o alargado Torneio Internacional de LM em 1964, no recém inaugurado Pavilhão de Desportos do Sporting com capacidade para 6000 assistentes , a abarrotar pelas costuras. Ia ver os jogos na companhia do meu saudoso pai. Foi essa grande geração de hoquistas, a força propulsora  e preponderante de novas conquistas. Sucederam-se campeonatos nacionais, Taça de Portugal e a grande equipa do Grupo Desportivo de Lourenço Marques, a perder para o Barcelona em 1974 a final da Taça dos Campeões Europeus , onde pontificavam Fernando Adrião (em fim de carreira) Rousseau, Abílio Moreira (também quase a  pendurar os patins), José Pedro, Amílcar, Borges, Fernando António, Carlos Pereira, dignos seguidores dos lendários Velasco e Adrião. Foi o último grande feito antes da Independência de Moçambique. Depois foi o êxodo de muitos praticantes, a viajarem para Portugal e a atuarem em várias coletividades locais. Curiosamente o povo moçambicano não perdeu a paixão pela modalidade, a exemplo de Angola e a Seleção da África do Sul, constituída praticamente por descendentes de portugueses. Moçambique tem feito grandes progressos na modalidade e o entusiasmo vai crescendo gradualmente face aos excelentes resultados nos Mundiais de 2011 e 2013, tornando-a na melhor formação do continente africano. Que sejam agora no Mundial em França, tão felizes como aquela seleção que deslumbrou o mundo , já lá vai mais de meio século.

Manuel Terra

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Praça de Touros Monumental



Vasculhando há alguns dias jornais moçambicanos, deparei-me com a desagradável noticia da atual situação porque passa a antiga praça de Touros, a Monumental completamente virada de costas para o passado, onde a sua traça circundante e as letras que já vão faltando no topo da porta da entrada, são um símbolo de um tempo áureo que já passou. Atualmente é o centro de muitas lojas informais  e oficinas de reparações de automóveis, jorrando pelos terrenos envolventes os óleos  dos carros e outros detritos, provocando o amontoado de lixo um cheiro nauseabundo,  dado  o excesso de vendedores ambulantes pouco apoquentados por questões ambientais. Despeço-me por momentos do presente e acerto a ligação com as memórias. Lembro-me como se fosse hoje, como era a Praça Monumental na década 60  construída  contiguamente à  Av. General Craveiro Lopes (hoje Av. dos Acordos de Lusaka) e muito próximo do Bairro da Malhangalene, em lugar privilegiado e com parque de estacionamento térreo. Muito pela presença dos portugueses, a festa brava foi ganhando tradição em LM e as faenas iam-se realizando no período do Ano Novo, Páscoa e comemorações do dia da cidade. Quem ajudava a encher a Monumental em dia de afición , eram os milhares de turistas sul-africanos e rodesianos; muitos deles a gozarem férias não perdiam a oportunidade e era vê-los  nas bancadas com as suas balalaicas brancas e chapéus de sol, munidos de  potentes máquinas fotográficas, para colherem  instantâneos guardados para a posteridade . Recordo ainda como garoto e levado pela mão do meu saudoso pai, a minha ida à Praça de Touros para assistir a um dos maiores espetáculos de touros até então realizados na capital moçambicana e, que tinha como protagonistas a fina flor da arte tauromatica   portuguesa, nada menos do que Manuel dos Santos e Diamantino Viseu num mano a mano empolgante, que entusiasmava e fomentava paixões entre os aficionados , partidários de um ou do outro, artistas que envergando os seus trajes de luces  puxavam pelo o público e a cada faena, faziam levantar os entusiastas que não regateavam fortes aplausos aos momentos mais arrojados na arena. As pegas ficavam a cargo do Grupo de Forcados de Xinavane. Pela Praça de Touros  Monumental passaram outros nomes sonantes da Festa Brava, lembrando Ribeiro Telles, Mestre Batista , José Júlio, Luís Veiga entre muitos outros famosos na época. Não sendo propriamente um simpatizante destas lides, desloquei-me várias vezes à Monumental para assistir as delirantes garraiadas, organizadas pelos estudantes universitários para angariação de fundos. Dada a sua considerável estrutura, foi feito o aproveitamento do espaço por baixos da bancadas, construindo-se lojas e um restaurante . Após o 25 de Abril de 1974, cessaram as touradas e na Monumental nasceu um mercado de venda de frutas e produtos hortícolas onde ainda tive a oportunidade de fazer algumas compras. Com os acontecimentos do 7 de Setembro foi saqueado e encerradas as portas da Monumental. Sendo prometido um projeto para requalificação da Monumental, até aos dias de hoje ainda não passou de uma intenção . Tempo para lembrar que foi naquela arena, em trabalhos de arranjos a proporcionar depois a entrada gratuita, que um menino negro repleto de sonhos e paixão pela arte de tourear , não passou despercebido ao empresário Alfredo Ovelha , que se apercebendo dos dotes do rapazote, depressa o enviou para a Metrópole e o recomendou a Manuel dos Santos. Esse menino chamava-se Ricardo Chibanga, o único negro matador de touros que eu conheci, a quem a destreza e valentia não passava despercebida aos aficionados, sendo em 68  num ambiente de apoteose  levado aos ombros no Campo Pequeno. Para além de passear toda a sua classe e fama  que correu o mundo, a Monumental da antiga Lourenço Marques teve o privilégio de o acolher numa atuação, como cabeça de cartaz. Sabendo de antemão que os povos africanos não têm uma cultura virada para a Tauromaquia, seria da mais elementar justiça que no futuro, aquele espaço fosse requalificado sem perder a sua preciosa traça e que o nome de Ricardo Chibanga fosse perpetuado, nos anais da História de Moçambique. O tempo da chamada já vai longo; desligo e no fim de linha ainda pareço ouvir os vibrante olés oriundos das bancadas superlotadas, agora substituídos pela azáfama e pregões dos vendedores que tudo anunciam ao preço da chuva. Mas eternamente haverá sempre sol-e- sombra , na Monumental da cidade das acácias.

Manuel Terra

terça-feira, 11 de novembro de 2014

As cervejas moçambicanas




Voltando ao persistente hábito das incursões aos tempos da minha mocidade, recheada de recordações que se perfilam como retratos fixados no álbum da vida, quase sempre esmiuçadas numa roda de amigos entre dois dedos de conversa. Os temas jamais se esgotam e, muito menos têm limites. A metáfora de hoje traz-me à memória as cervejas moçambicanas de excelente quilate, a projetarem a imagem da pérola do índico e que ajudaram a contar muitas histórias daqueles que lá nasceram ou um dia lá viveram . Ao ler os canais de informação lusófonos, rejubilei ao constatar que a empresa Cervejas de Moçambique, que detém os direitos produção da Laurentina e 2M está já  a exportar para a África do Sul e Portugal, as cervejas do meu tempo. Mais antiga a Laurentina, em homenagem aos” laurentinos” também conhecidos como “cocacolas” assim eram chamados os naturais da antiga Lourenço Marques. Nos meados da década 60 surgiu no mercado a marca 2M, focando a histórica decisão do marechal Patrice Maurice, conde de Mac-Mahon, então presidente da república de França que em 1875 decidiu a favor de Portugal numa disputa com a Grã-Bretanha, relativamente à posse da região sul do território moçambicano. Havia ainda uma outra cerveja a Manica, de bom paladar produzida na cidade da Beira. A Laurentina era a mais afamada e, quem já não se lembra daquelas garrafas douradas por fora e de ouro por dentro, numa alusão ao bem conseguido spot publicitário de ocasião, radiofundido frequentemente pelo Rádio Clube local. Perdura no tempo o hábito nas muitas esplanadas de snack-bar e restaurantes  , proporcionar aos seus frequentadores sempre que fosse pedida uma cerveja em garrafa ou em copo, o acompanhamento de um pequeno prato com camarões ou dobrada, amendoins torrados e tremoços ,de forma graciosa. A cerveja  acompanhavam bem toda a gastronomia portuguesa, usada também como ingrediente na confeção de muitos pratos, mas na cozinha moçambicana e goesa funcionavam como uma espécie de pronto socorro para abafar o ardor do malandro piripiri. Bailam-me na mente a famosa galinha á cafreal no Piri-Piri  e no Coimbra que não dispensavam o emborcar de uma cervejolas bem fresquinhas a escorrerem suavemente pela garganta, como também o acompanhamento aos bons combinados da Cristal e dos maravilhosos camarões da Marisqueira da Baixa e do Alto Maé, da Imperial, do Costa do Sol, Ponto Final, Marisol (na Catembe) e de outros pontos de referência da restauração da capital. Não me poderia esquecer jamais da célebre Cervejaria Nacional (propriedade das Cervejas Reunidas) localizada na antiga avenida Paiva Manso(hoje Filipe Magaya) lugar de confraternização de muitos adolescentes, especialmente em dias de aniversário, onde os jovens apostavam no bitoque da casa , prato servido de forma abastada e confecionado a bom gosto .Era frequente neste espaço, os mais espigadotes trocarem os  refrigerantes por umas geladinhas Laurentinas, numa atitude de afirmação ao estado  adulto. De facto a Laurentina apostava forte na estratégia do marketing, estabelecendo uma relação de paixão entre a marca e o consumidor . Afinal beber uma cerveja ou um copo foi sempre um bom argumento para juntar à mesa, familiares, colegas e amigos. A sua excêntrica qualidade também não escapava aos milhares de turistas  sul-africanos, que de férias na época balnear a consumiam por vezes com alguma exuberância no parque de Campismo, contíguo ao Restaurante e Snack Bar Miramar junto à praia com o mesmo nome. A exibição do seu logótipo era constante em muitos reclamos de estabelecimentos de restauração, parques desportivos e pinturas laterias nos prédios altos da antiga LM. Quem não se lembra das tardes dançantes de bairros e clubes, patrocinadas pela cervejeira moçambicana? Também não esqueço as visitas de estudo da malta da Escola Industrial à Fabrica de Cervejas Reunidas, localizada na Baixa na Av. da República(hoje 25 de Setembro) no cruzamento com a General Machado( hoje Guerra Popular)que nos proporcionava no final, a desejada passagem pelo refeitório. Éramo-nos servidas sandes de carne assada e churrasco e dos tanques para as canecas, jorrava cerveja efervescente que fazia as delícias de todos. Cá fora ainda se sentia o cheiro forte da cevada, expelida da zona de moagem. Lembro-me também do Senhor Melo da administração da FCR, a quem recorríamos nas vésperas de eventos desportivos de bairro, para oferta de camisolas de manga curta (era assim que se dizia na época) com o design da Laurentina, tonalizadas quase sempre de cor amarela. Seria injusto também não referir as visitas, em minibus da própria empresa à fabrica concorrente, a 2M erguida na Estrada do Influene com modernas instalações. Depois de tudo visionado e recolhidos os apontamentos, abriam-se as portas do refeitório e lá estavam também as sandes de carne assada e frango de churrasco à espera da rapaziada, que aconchegando o estômago e saciando a sede, dava de seguida largas à sua alegria. Era a expressão comum da juventude, na plenitude da sua sã irreverência. O correr dos anos não nos pode separar do passado e agora só me resta passar pelas prateleiras de uma grande superfície comercial, para o desejado ponto de encontro com a cerveja Laurentina em todas as suas versões ou a 2M e, desfrutar do belo paladar das cervejas daquela amada terra africana. Certamente que recordações não faltarão

Manuel Terrra

sábado, 17 de maio de 2014

Fonte Luminosa




O tempo passa, mas as recordações que trazem à memoria os bons momentos e emoções vividas naquela terra maravilhosa, são a expressão de um sentimento nostálgico transformado em paixão eterna e fascinante. Sempre que se encontra gente moçambicana, entre dois dedos de conversa, as palavras soltam a exercitação da memória e inevitavelmente as conversas tornam-se mais efusivas quando se pronuncia o ponto de encontro de outrora. Lembrei-me há dias da Fonte Luminosa, localizada no prolongamento da Av. da República (hoje Av. 25 de Setembro) já muito próxima do Clube Naval ,de onde rompia a Estrada da Marginal que ligava à Costa do Sol. A evocação tem muito a ver com o meu saudoso pai, a quem  competia garantir a manutenção e funcionamento dos repuxos luminosos. A Fonte Luminosa só funcionava aos fins de semana, dado que a rede elétrica não era extensível ao local, razão pela qual o meu progenitor tinha a responsabilidade de acionar um velho gerador, poluente e já rouco de tantas horas de trabalho, silenciado apenas com a entrada da madrugada.  Por lá passei na companhia dos meus irmãos, sábados, domingos e feriados e, para que o meu pai não ficasse privado do contato com a família, a minha mãe transportávamo-nos até ao imenso terreno marginado de eucaliptos , onde figuravam o recinto do motor e uma pequena dependência construída a tijolo, enegrecido pelo fumo e gazes expelidos pelo gerador. Quase como um planalto, avistava-se a Barreira da Maxaquene que estabelecia a ligação à baixa citadina. Para nós eram dias maravilhosos de corridas loucas e sinuosas por entre as portentosas árvores, como que correndo atrás de qualquer ilusão. Uma bola fazia parte da nossa companhia e dos muitos sonhos de infância. Recordo que ao cair da tarde, caso as traquinices fossem bem toleradas, tínhamos como prémio os deliciosos sorvetes vendidos do outro lado da artéria, no Quiosque da Socigel. Nessa imensa floresta eucaliptal , quem já não se lembra da realização de festas populares, com o requinte de qualquer romaria da longínqua Metrópole ? Tinha ali lugar a festa que venerava o Senhor da Pedra Pequenino, uma autêntica romaria que arrastava os que para lá partiram e os laurentinos. Eram montados tasquinhas de “comes e bebes” e stands para a venda de rifas e um palco por onde passavam artistas locais, não faltando como era previsível as atuações de inúmeros ranchos folclóricos em representação de várias regiões de Portugal Continental. Nas árvores eram montados os alto-falantes  que difundiam musica popular portuguesa, em voga. No ar pairava o cheiro e fumaça vindo dos assadores das sardinhas, acompanhadas de broa e pão centeio. As fêveras e o caldo verde tinham igualmente saída, assim como todos os pratos da cozinha tradicional portuguesa. O que não poderia faltar era o bom vinho tinto, que jorrava das pipas para as canecas e depois para os copos dos romeiros , que ajudava de sobremaneira a radiar a alegria incontida de quem não esquecia as raízes que os ligavam ao seu torrão natal. Era assim de uma  forma apaixonada, que em Moçambique a africanidade conjugava na perfeição, com a tradição e crença dos seus habitantes. São estas relações com a Pérola do Índico e as visões tão permanentes, que me fazem acreditar que o caminho com o passado, não é assim tão distante.

Manuel Terra

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Eusébio e a Mafalala




A morte do grande Eusébio, reflete-me necessariamente para todo o seu brilhante historial, algo como um livro que se começa a ler de conteúdo fascinante, mas que encerra a última página com grande amargo. Para além de fabuloso futebolista, Eusébio foi o vizinho que os jovens do meu bairro (Munhuana) se orgulhavam , de quem se falava quotidianamente  pela afirmação desportiva que ia ganhando no Benfica e além fronteiras. As transmissões radiofónicas e os jornais suscitavam-nos todas as atenções. O nosso bairro, entroncava com a Av.Caldas Xavier(hoje Marien Ngouabi) com abertura para a Rua de Goa , rosto do histórico e emblemático Bairro da Mafalala, que se estendia até às zonas limítrofes de Xipamanine. Vivia-se o verão quente de 42 (curiosamente título de uma grande produção cinematográfica), quando o luar do bairro mítico se tornou mais deslumbrante, com a resplandecência de uma estrela maior que acabara de nascer; Eusébio  da Silva Ferreira era o seu nome. O Bairro da Mafalala simbolizava a união entre o desporto, arte, cultura e politica como que magia, onde habitaram José Craveirinha, grande poeta da língua de Camões, Joaquim Chissano e Samora Machel, presidentes da República de Moçambique e outros políticos africanos. Naquele espaço residencial, floresciam modestas casas de madeira e zinco, sintetizadas por construção muito similar, envoltas de acácias, coqueiros, mangueiras, cajueiros e bananeiras que lhe emprestavam uma coreografia , que só a natureza sabe tecer. Aqui e acolá situavam-se as tradicionais cantinas pintadas com cores garridas, onde as populações adquiriam géneros alimentícios. O dia a dia daquela importante área suburbana,  era a de uma urbe operária quase transformada em formigueiro, onde os homens madrugavam rumo à zona portuária , oficinas e para as obras de construção civil. Às mulheres tocava-lhes as tarefas domésticas e muitas vezes a educação dos filhos, que segundo a tradição africana,  privilegiava o amor maternal. O labirinto do caniço emanava uma alegria esfuziante, com os miúdos a correrem atrás de um aro de bicicleta, “telecomandado” com uma pequena cana, ou  verguinha metálica com gancho no fundo; o lançamento para o espaço de papagaios de papel, não esquecendo as tradicionais corridas de carros feitos de arames e latas vazias de leite condensado, trabalhados por mãos habilidosas, as mesmas que executavam sofisticadas fisgas, de elástico vermelho.  Os jogos de berlindes faziam parte da rotina, exigindo visão apurada e destreza de dedos na arte de rapar. Os adultos e anciãos  sentavam-se frequentemente no chão de pernas cruzadas , para jogar o tchuba, entretimento que consistia em introduzir pedras em buracos cavados na terra ,segundo regras próprias. Os deliciados pelo futebol, aproveitavam os lúgubres baldios de terra quase vermelha, moldados com balizas improvisadas, para disputarem com a trapeira ou uma deformada bola de borracha, partidas de grande intensidade disputados debaixo de sol escaldante e, só o pôr do sol africano ajudava então a arrefecer os seus calejados pés . Por lá passei muitas vezes , testemunhando tal vivência. Eusébio, era um menino pobre como tantos outros, que não perdia uma pelada e que acalentava ser craque de futebol. As asas do sonho trouxeram-no até Lisboa e, no Bairro da Mafalala tudo mudou, porque o génio ali nascido tornara-se gente grande, expressão tão peculiar entre os moçambicanos . Recordo as manhãs dominicais no popular bairro, de onde ecoavam as melodias de Roberto Carlos e Teixeirinha, porém à tarde era quase religioso, sintonizar os transístores para os relatos da Emissora Nacional e quando Eusébio marcava, era o delírio, transparecendo a ideia de que os seus moradores eram quase todos do Benfica. Quem já não se lembra das grandes romarias à Mafalala, aquando da conquista da Taça dos Campeões Europeus em Amesterdão  e, da vitória sobre a Coreia do Norte no Campeonato do Mundo em Inglaterra? Por curiosidade ambas por 5-3, marcas que mudaram o futebol português. Tenho ainda na mente, as vezes sem conta das deslocações da mocidade da Mafalala ao nosso bairro, para no terreno de terra solta junto ao Prédio Mari Jorge, nas tardes de sábado , participarem em jogatanas sem guerrilha tática . Uma grande árvore ali plantada, já cansada dos anos, servia-nos de hipotético balaneário. A única condição  residia no facto de todos jogarmos descalços. Os pontapés na bola começavam logo após o descanso do almoço e, só terminavam quando disparava a iluminação pública da cidade. Eusébio era uma forte motivação para nós e vezes houvera, que qualquer golo ou um lance mais criativo, merecia a citação do grande ídolo. São recordações tão latentes, que jamais se poderão apagar do meu imaginário. Fico feliz por saber que vai ser erguido no Bairro pobre da Mafalala, um museu com roteiro turístico onde ficarão perpetuadas as memórias da excentricidade humana, das figuras ilustres  que por lá nasceram e viveram. Eusébio terá seguramente um lugar de destaque.

Manuel Terra

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Beira a cidade do futuro



Os recentes acontecimentos de violência nos arredores da Beira, despertaram-me os sentimentos e vem-me à  memória,  imagens daquela terra a quem os moçambicanos apelidaram cidade do futuro. Sempre ansiei conhecer aquelas paragens e a final do Campeonato Provincial de Futebol de 1975  agendada para lá, constituiu o mote para a viagem. Revivo a partida da capital, a partir do Bairro do Chamanculo em autocarro da Auto Viação Sul do Save às cinco horas da manhã. Comigo seguiam outros passageiros, irmanados pelo mesmo desejo. Depois do pequeno almoço em João Belo e um almoço super reforçado na Maxixe, prosseguimos a aventura rumo à segunda maior urbe de Moçambique. Já desgastados e com mais de vinte horas a rolar, chegamos antes do sol raiar sob a bênção da madrugada, ao terminal . Antes de retirar a bagagem, fiquei assim como  os restantes companheiros, rendidos ao encanto da imponente estação dos Caminhos de Ferro, uma verdadeira maravilha da arquitetura moderna, convenientemente iluminada , majestosa em qualquer lugar do planeta. Era a verdadeira ex-libris da Beira, local de embarque da  linha internacional que ligava à então Rodésia  (hoje Zimbaué).Depois foi  apanhar um táxi rumo ao Hotel Moçambique para tentar reparar o cansaço da jornada. Uma vez acordado e com a torreira do sol de Janeiro, quente e húmido como seria de esperar, nada melhor do que subir ao alto do hotel e lançar o olhar sobre aquela cidade, conquistada ao pântano pela persistência e engenho do homem. Esboçada  a partir da margem esquerda do Rio Pungué , abraçada pelo Índico, servia-se do Rio Chiveve  um riacho ligado a um braço de mar destinado a travar o movimento intruso das marés. Lá estava a velhinha ponte metálica com arcos,(hoje desmantelada) a unir entre margens a cidade, abaixo do nível das águas do mar. O seu porto marítimo era um dos mais importantes de África Oriental, com ligações a todas as rotas do mundo. A Beira era uma cidade plana com artérias bem delineadas e arborizadas , que enquadrava edifícios de porte considerável concebidos por arquitetos visionários, com habitações de traça colonial , casas de madeira e zinco ou de alvenaria. Era uma terra com uma mística muito especial, onde o bairrismo popular simbolizava o fervor dos seus habitantes. Não passava despercebida a simbiose de culturas expressas nas raças e crenças dos beirenses, realçada com a presença significativa da comunidade sino-asiática, descendentes  do grande contingente oriundo de Singapura, Macau, Cantão e Hong-Kong então contratados nos finais do século XIX, para a construção de portos e caminhos de ferro, em Moçambique. Tentei aproveitar o melhor possível  os quatro dias reservados para a visita, percorrendo a pé e na companhia de colegas, as referências da cidade, onde chamava a atenção as ruas comerciais a lembrar a longínqua Índia e Paquistão, pejada de comerciantes a quem se adivinhava a perspicácia para o negócio, onde o cliente não podia abandonar a loja sem comprar, bijutarias, artigos de moda ou especiarias asiáticas.
Na Ponta Gêo ,lá estava o Grande Hotel excêntrica obra de arquitetura, parecendo já adivinhar a condenação a que foi sujeito. Passagem obrigatória era também pelo Largo Caldas Xavier (hoje suponho Praça do Metical) onde estava localizado o edifício do BNU. Já muito perto da zona da Baixa, uma paragem para um  delicioso sumo de laranja servido no Salão de Chá Alpino, também conhecido pela qualidade dos seus gelados. As visitas noturnas ficaram marcadas para a zona do Maquinino , lugar de diversão dos locais e turistas sobretudo rodesianos, para uma escapadela até ao clube noturno Moulin Rouge, simbolizado pelo tradicional moinho caraterizado pelo tom  vermelho , numa alusão ainda que distante do famoso cabaré, que animava as noites boémias de Paris. A Beira era também conhecida pela qualidade dos seus mariscos e para saciar o apetite pelos crustáceos , nada melhor do que abancar na esplanada do Restaurante Chinês e aguardar pela travessa dos camarões bem fritos e dos caranguejos preparados com primor, onde ao calor da noite se juntou o ardor do piri-piri, rapidamente abafado com a ingestão de umas Manicas(cerveja e boa) bem fresquinhas. O dia de Domingo cheirava já a despedida e bem cedo nos encaminhamos para a Praça do Município, centro nevrálgico  da cidade e onde os beirenses se aglomeravam, comentando em pequenos grupos as inquietações quanto ao futuro; a independência caminhava a passos rápidos e também a final da tarde desportiva. O Café Riviera era uma referência daquele espaço, afamado pelas conversas de pé de orelha. Após o almoço, começou a romaria até ao Campo do Ferroviário, onde se iriam defrontar  a formação da casa e o Sporting Clube de LM. A lotação esgotou, a emoção transbordou e os golos não faltaram. Para quem já não se lembre, os ”locomotivas” beirenses foram os últimos campeões da Província( depois viria o Moçambola) derrotando os “leões” laurentinos por dois a zero. No final da partida, um autêntico festival quase carnavalesco e preparado o cortejo automóvel  com as buzinas  no limite, para comemorar a conquista do  troféu . O pôr do sol ditava já o fim do dia de descanso e a noite caiu sorrateira sobre a cidade. Dispararam os néones e a iluminação artificial dando-lhe um colorido muito especial a que se associou aquele luar de prata com todo o esplendor a resgatar a penumbra que lhe pertence. Para nós era já hora de preparar o regresso. Segunda feira após o almoço, o grupo excursionista concentrou-se junta à gare ferroviária, onde se encontrava atempadamente o potente Scania que nos transportaria de regresso a Lourenço Marques. Várias aceleradelas contínuas, davam o sinal de partida. Para trás ficava já a cidade do futuro, rodeada de água e tal como a interpretava o saudoso João Maria Tudela, a Beira era indiscutivelmente noiva do mar.

Manuel Terra
 
 

sábado, 24 de agosto de 2013

Cais Gorjão



Neste imenso caudal de recordações, predomina sempre a propensa teimosia de se reviver tempos passados, que nos parecem levar ao ponto de partida como se tudo permanecesse tal e qual o vivemos. Aeroportos e portos marítimos estão para sempre ligados, à corrente da expetativa por expressarem o fascínio da descoberta de mundos imaginados em sonho. A recente noticia do início dos trabalhos da construção da ponte metálica entre o Lingamo, junto a zona portuária  e a outra margem do estuário da Baia do Espirito Santo, que fará  da Vila da Catembe  o futuro dormitório da capital moçambicana, levou-me logo ao imenso Cais Gorjão equipado com potentes guindastes, lembrando robôs de braços gigantes a abraçarem a teia das cargas e descargas geradoras de grande bulício no porto marítimo. Recriavam sempre ambientes de grande festa a chegada dos navios de passageiros procedentes da longínqua Metrópole , apinhados de gente à procura de novas aventuras e oportunidades. Meu pai embarcou  em 1956 para a então Lourenço Marques a bordo do Pátria procurando estruturar o seu modo de vida e  em 1958, a minha mãe, eu o meu irmão Aurélio e mais alguns familiares zarpamos de Âlcantra-Mar no bojo do Angola, para o reencontro com a família já em Moçambique. Depois de cerca de vinte dias salpicados pelo Atlântico, sentimos à passagem da cidade do Cabo a turbulência das correntes marítimas do Índico, mas também o desejo de chegar a bom porto. Finalmente pronunciava-se terra à vista, a boa nova sublinhada pelos sons fortes emitidos pelo suar das buzinas do navio. Anunciada a atracagem, os passageiros iam-se debruçando sobre a amurada do navio tentando descortinar aqueles que os esperavam. Afloram-me à retina as centenas de serpentinas multicores  lançadas do cais para presentearem os que acabavam de chegar , em ambiente de festa e calorosa receção. O pisar o Cais Gorjão, foi o meu primeiro ato a marcar a identidade afetiva com aquela terra , gravado como um poema de vida sempre pronto a recitar. Ainda me lembro de uma quase peregrinação à ponte cais para os laurentinos verem (quiçá a única vez) a amarragem ao Cais Gorjão, ali juntos o Príncipe  Perfeito e o Infante D. Henrique, dois paquetes de luxo que à época distinguiam a nossa frota da marinha mercante, na então chamada linha colonial. Também me ocorre à ideia as boas pescarias na ponte de cais, onde eu , meu pai e irmão içava-mos da baía, belos exemplares de garoupas que gulosamente mordiam o anzol armadilhado com um pequeno camarão. Presença constante era a dos vendedores de artesanato africano, bastante procurado pelos marujos de várias nacionalidades, que demandavam ao porto de LM. Foi pois para o Cais Gorjão, que a corrente das marés da vida  me levou hoje e é seduzido pelo seu encanto que o deixo, lá longe tão distante mas tão próximo dos meus pensamentos.

Manuel Terra

domingo, 28 de abril de 2013

O Clube Naval



Soube recentemente que o Clube Naval, a instituição desportiva mais antiga registada em Moçambique comemorou a bonita idade de 100 anos, belo como sempre a deixar para trás um longo caminho marcado por atividades náuticas. Foi precisamente no longínquo ano de 1913, que nasceu o Grémio Náutico fundido em 1938 no Clube Naval, agremiação   que fomentou a vela, remo, motonáutica ,pesca desportiva ,caça submarina, mais tarde a natação e ainda uma secção de ténis. A sua sede localizava-se na ala mais alargada da marginal já a confinar com a rotunda luminosa, abraçando fraternamente a Baía do Espírito Santo e era considerada pela  sua ousada construção clássica, marcada por um conjunto de arcos contínuos ao longo do seu extenso varandim, servido por escadas já polidas pelo calcorrear dos frequentadores, um espaço a visitar.  A tonalidade branca do seu edifício acasalava na perfeição entre a harmonia magnífica de um sol dourado  e as ondas borbulhantes que batiam em seu redor. Em anexo foi construído o porto de abrigo, que servia inúmeras embarcações de recreio que demandavam à antiga Lourenço Marques e, onde se procediam a pequenas reparações e cuidados de manutenção.  De lá partiam pequenos barcos de recreio , transportando desportistas para a pesca desportiva e caça submarina, que quando em competição obtinham excelentes resultados, provando o talento dos seus atletas a contrastar com as espécies de grande envergadura então capturadas. Quem já não se recorda das célebres regatas entre a capital moçambicana e Durban, em que destemidas tripulações tentavam tirar o maior proveito da expressão do vento e do mar do Índico , procurando chegar a bom porto e bem classificadas? Agradáveis de seguir eram as provas de remo em que participavam atletas da outra coletividade, o Clube Marítimo de Desportos e o núcleo da Mocidade Portuguesa , nos percursos estabelecidos até aos areais da Catembe. Empolgantes  as corridas de motonáutica,  marcadas por modelos acabados de saírem dos mercados, autênticas  máquinas flutuantes e voadoras, equipadas com motores potentes que sulcavam  as águas da baía, entre o Clube Naval e o Pavilhão Oceânia, comandados por pilotos de várias nacionalidades que pareciam estrondar a atmosfera circundante ante o gáudio dos laurentinos dispostos em grande número na proteção da muralha, a extravasarem  entusiasmo contagiante. Na verdade naquela terra , cada acontecimento era vivido com uma paixão jubilante. Entaladas entre a sede e porto de abrigo, situavam-se as duas piscinas inauguradas já em 1974, destinadas aos sócios que ali passavam momentos de ócio, mergulhando e dando umas braçadas, em águas bem tratadas a espelharem os raios solares com intensidade, quase como  catalisadores de alta temperatura. Já depois da Revolução de Abril proliferaram por LM, por várias associações e clubes desportivos a  febre das sessões de bingo de frequência quase quotidiana e, acabei muitas vezes por me deslocar ao Clube Naval, onde no seu salão, tentava o prémio sortudo em jogo. Enquanto sorvia um café no bar, em jeito de compasso de espera pelo início do girar das bolas saltitantes, pude observar a magnificência do edifício ainda hoje considerado como ex-libris da cidade das acácias. É a navegar no mar da saudade que regresso ao presente, mas a olhar sempre para a costa para não perder de vista o centenário Clube Naval.

Manuel Terra

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A Vila de Marracuene




Os sentimentos de saudade que nos acompanham no desenrolar dos dias, são substancialmente testemunhos de um ciclo de vida que não se esquece, sonhos  imaginários, emoções vividas intensamente , com a partilha da amizade por parte de famílias, colegas e amigos , que davam uma expressão alegre aos convívios de então. O espelho das minhas recordações , reflete imagens da bonita vila de Marracuene a quem muitos chamavam Vila Luísa, mas que nunca perdeu o berço quiçá por razões históricas e , por tal Marracuene foi o nome que se eternizou na memória de todos quanto a visitaram. Quem já não se recorda daqueles passeios dominicais, até à bela terra beijada pelo Rio Incomáti e que distava a trinta quilómetros da então Lourenço Marques? Transporta a zona do Bairro do Jardim, era a EN1 que nos conduzia ao destino romântico de beleza contagiante, onde cada cenário era merecedor da tela e caixilho, como que a exigir exposição perpétua na melhor galeria de arte. Da sua muralha privilegiada podia-se observar o Rio Incomáti de extenso caudal, habitat natural de hipopótamos e crocodilos, serpentear o extenso vale que se perdia no horizonte e que tinha acolhimento em terras de Xinavane, fertilizando o seu solo. Do pequeno cais partia o velho batelão , transportando turistas e automóveis de tração adequada que se dirigia para as dunas da Macaneta,  paraíso selvagem em que as areias finas se misturavam aos tons imaculados de um invejável azul marinho tingido pelas vagas do Índico. Junto à margem do rio confinado à vila, lá estava o apeadouro ferroviário que servia a linha entre a capital e a vila da Manhiça, célebre pelas suas plantações açucareiras. A velha locomotiva  de outrora, puxando pelas carruagens apinhadas de gente, com os seus  estridentes apitos de aproximação ao local pareciam estrondar a atmosfera tão diáfana, dispersando-se num adeus calmo rumo à próxima estação. A deslumbrância da vila histórica, contemplava as bem formatadas artérias impecavelmente limpas, ornamentadas de árvores tropicais com os troncos caiados, indispensáveis para proteger os seus habitantes do calor intenso, encantadoras para quem lá transitava. As horas passavam rápidas para os visitantes e, a exiguidade do tempo obrigava-os a acelerar o passo e depois da passagem quase obrigatória pelo  Pavilhão do Chá (hoje renovado) construído na década  trinta, que recebia muitos turistas sul africanos ávidos por passeios de barco e para não faltar animação, aos fins de semana os habituais alegres bailaricos onde imperava a arte de bem dançar . Ninguém se retirava da vila, sem olhar com atenção por alguns instantes a majestosa residência do administrador, edifício de invejável traça arquitetónica , deixando antever o esmerado gosto de quem o projetou. Continuando a circular observávamos  o  Posto Administrativo, de construção atrativa apesar do distante ano em que foi erguido, coroado com enorme telhado que lhe dava uma expressão de grandiosidade. Defronte achava-se o jardim público que cativava os frequentadores dado o seu esplendor, arborizado com espécies bem selecionadas e recheado de canteiros bem aflorados. Era sob a bênção das suas sombras, que os mais petizes corriam de forma desordenada, em que os adolescentes pensavam o futuro e os mais velhos punham a conversa em dia  ou então jogando à “sueca”. Pelo meio ia-se comendo, bebendo entre a repartição das merendas. Era já com o sol a esconder-se e o luar a espreitar, que os passeantes se despediam de Marracuene com um até breve. Hoje, lá longe aquele oásis africano continua a ser evocado como uma terra maravilhosa e hospitaleira, que jamais será esquecida no tempo.

Manuel Terra

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O meu Desportivo




Fui tocado há alguns dias, pela notícia da despromoção do Grupo Desportivo de Maputo (ex-Grupo Desportivo de Lourenço Marques) que se despediu do Moçambola, a principal Liga do futebol de Moçambique, sem honra nem glória para na próxima temporada disputar o modesto escalão secundário e, que terá apenas expressão distrital.  Foi o eclipse de um ciclo com mais de 90 anos, cheio de historial e grandeza, que envolveu durante muitas décadas o futebol, hóquei em patins, basquetebol, atletismo e natação que o tornou numa coletividade popular, caraterizada pela mística alvinegra e que foi inequivocamente um berço de grandes atletas. O então Grupo Desportivo de Lourenço Marques, cujo emblema era simbolizado por uma águia e que hoje ainda se mantém, era o ninho de muitos naturais da então LM e simpatizantes do Sport Lisboa e Benfica, que por divergências internas desertaram e fundaram o SLM e Benfica na década 60. O GDLM será sempre uma referência da minha juventude naquela terra, porque fui praticante de basquetebol nas camadas jovens até ao escalão  dos juniores, pelo que recordo o tempo em que depois de terminadas as aulas na Escola Industrial, rumava rapidamente à parte baixa da Barreira da Maxaquene e, entrava pelo portão grande das instalações do clube para os treinos e jogos.  Seis pilares bem distintos onde se fixavam os mastros engalados em dias de festa ou competição, ilustravam a fachada daquele  magnânimo  complexo que tinha dois ringues polivalentes, espaço para a divulgação do mini basquetebol, sede social , uma pequena piscina de aprendizagem e sua ex-libris  piscina olímpica . Paredes meias situavam-se as instalações do Sporting(hoje Maxaquene) velho rival e era junto ao campo de futebol dos “leões” o Campo Silva Pereira, que se localizava o velhinho Campo Paulino dos Santos Gil onde os alvinegros disputavam os jogos de futebol. Como consequência de uma doentia rivalidade, os atletas quer de Sporting, quer do Desportivo vinham já equipados das suas instalações. No futebol quem já não se lembra dos guardiões Fernando Fernandes, do Arménio do tempo das joelheiras e cotoveleiras e do boné na cabeça, da classe do Hamide, da agilidade do Damune  e do Cremildo, das fintas estonteantes do brasileiro Santa Rita (Tubarão) e do estilo felino de Sérgio Albasini, na procura do golo. Foram muitas as tardes em que passearam a classe nos campos de futebol. No hóquei em patins, a modalidade onde o clube atingiu maior notoriedade com a conquista de três campeonatos nacionais em que participavam as equipas da Metrópole  e em 74 vice campeão europeu, prova que obrigou o clube a jogar sempre fora de Moçambique, mas onde Flores Cardoso, Amílcar, Fernando António, Carlos Pereira e o já veterano Fernando Adrião deram show nos principais ringues europeus, consagrando-se como galácticos. No basquetebol foram empolgantes os duelos com o rival Sporting, a equipa de maior cartel na modalidade , mas ninguém esquece o Manuel Lima, Paulo Carvalho, o Carlos Alemão, N.Narcy, José Arruda e o espetacular basquetebolista  norte americano Frank Martinuk que era um verdadeiro artista da bola ao cesto. No atletismo, era um prazer ver correr  Conceição Vilhena, a elegante e veloz Helena Relvas e o Stélio Craveirinha, o homem do salto em comprimento e especialista em triplo salto e capaz de ser um especialista em todos os módulos. Na natação marcaram uma época, As irmãs Gouveia(Dulce, Manuela e Lídia), Graça Maia, Clotilde B. de Melo, Susana Abreu , o Carlos Oliveira e o Júlio Ribeiro entre muitos. Na verdade foi esta grande coluna de notáveis, a que há que juntar os nomes de muitos outros, mas que provavelmente não caberiam no texto que ajudaram a escrever a história do clube mais popular da pérola do Índico. Para todos aqueles que um dia tiveram o prazer de representar as cores  do clube, apesar do tempo e da distância a natural tristeza, porque o GDLM de outrora foi um marco de grandes conquistas  e alegrias que jamais serão esquecidas , ainda hoje consagradas na sala de troféus do clube. Que os grandes êxitos de outrora conduzam a águia alvinegra a um regresso vitorioso.

Manuel Terra



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Museu Zoológico



Continuando a deixar-me embalar pela marcha do tempo, persisto caminhar sobre as lembranças  que trago da vida, momentos que foram reais e inesquecíveis que os guardo como tesouros que se devem conservar. É nesse contexto que afloro o Museu Zoológico Álvaro de Castro(hoje Museu Nacional de História) que se localizava junto à Rotunda da Praça dos Descobrimentos(hoje Praça Travessa do Zambeze) e que podia ser observado a partir do Liceu Salazar(hoje Liceu Josina Machel). Tratava-se de um edifício de traça invejável, refletindo uma tonalidade branca expansiva que perfumava o tipo de construção neomanuelino inaugurado no início da década trinta. Despertava especial atenção  a todos quanto o visitavam e os turistas estrangeiros não se cansavam de captar imagens até  esgotarem o rolo fotográfico para mais tarde recordarem aquela bela joia de África. Destacava-se logo à entrada do Museu o busto do seu fundador, ladeado de um jardim encantador e no seu interior brotava da pedra a selva concebida por  taxidermistas exímios na arte de embalsamar , que davam expressão a uma rara coleção de animais selvagens retirados do seu habitat natural, após serem abatidos e havia ainda uma ala onde eram visíveis  répteis e espécies marinhas e conchas de rara beleza. Ainda me recordo da minha primeira visita, que não foi a única e, foi pelas mãos dos meus pais que subi as escadarias trabalhadas em madeira da melhor qualidade, que nos guindavam até às largas galerias de onde se podia contemplar cenários de animais bravios, simulando cenas naturais. A visita tenho que admitir, atendendo à flor dos meus oito anos foi de um susto de arrepiar que só esmoreceu já de saída. Mais tarde já como estudante do liceu vizinho, tive oportunidade de em visitas de estudo guiadas e com rasgos de maior atenção, perceber melhor o que a selva engendrou. Sucederam-se depois mais algumas idas aquele espaço considerado histórico, quiçá o único no mundo que expõe fetos de elefantes desde um mês até aos vinte e dois meses. São estas imagens inapagáveis, ainda que o tempo marque uma distância, que nos ajudam a viver de novo algo que aconteceu e a pronunciar com indisfarçável  felicidade, que eu estive lá.

Manuel Terra

domingo, 19 de agosto de 2012

O velho aeroporto de Mavalane




Continuando a rever imagens memorizadas, presas para sempre às memórias do tempo e que me ajudam a recordar a minha infância e a de muitos jovens da geração a que hoje pertenço acabo sempre por entender que as citações e fotografias daquela boa época, servem para maximizar a saudade expressa num sentimento que nos faz sorrir e que também dói, logo que a mente é chamada a intervir. Evocar o passado representa um momento que nos detém por breves instantes numa viagem, que não tem ponto de partida ou de chegada e que acontece sem sair do mesmo local. As minhas referências lembram-me o antigo aeroporto de Mavalane, que sofreu algumas alterações até meados da década 60, substituído depois pelas novas instalações consagradas ao navegador Gago Coutinho e agora totalmente renovado e ampliado com o nome de Aeroporto Internacional de Maputo. Torno-me abstrato e aguardo o feedback  que me ligou de  forma muito especial aos muitos domingos, que  após missa o meu saudoso pai ir apanhar o machimbombo da linha 13 levando-me consigo e por vezes também o meu irmão até ao velho aeroporto, onde terminava a Av. de Angola defronte  de um pequeno espaço verde, onde era possível descortinar alguma sombra e que servia a praça de táxis. Lá chegados o meu progenitor  levávamo-nos carinhosamente até ao salão de chá do restaurante existente  no edifício, para as habituais torradas bem amanteigadas acompanhadas por café com leite servido em bule. Concluído o pequeno almoço muito especial era altura de nos encaminhar-mos até à longa varanda que servia de ponto de observação à pista, já cheio de entusiastas que aguardavam a aterragem quase sempre agendada para as 11 horas, do pássaro metálico oriundo de Lisboa . Pouco depois já se via em trajetória descente  o Super Constellation dos Transportes Aéreos Portugueses preparado para abraçar aquela longa terra africana, saudada pelo intenso ruido das suas potentes hélices. Para trás ficava uma longa viagem de quase 16 horas, atenuadas por algumas escalas. Ao hall da aerogare, chegava pela primeira vez a África gente aventureira à procura de novo lema para a sua vida, homens de negócios, mas também viajavam residentes de LM que vinham de férias da Metrópole que se desdobravam entre beijos, lágrimas, abraços e apertos de mão. No final a tradicional entrada triunfante e feliz da tripulação, com um sorriso nos lábios pelo dever cumprido. Todo aquele labirinto da aerogare me contagiou, tantas foram certamente as emoções do cruzamento de destinos entre esperanças e desilusões  que presencie, razão pela qual  já na adolescência fazia questão de ir tomar café inúmeras vezes ao novo aeroporto, para assistir ao ritual de partidas e chegadas. Já lá vão quase cinco décadas e ainda que o tempo seja condicionado pelo o sentido dos ponteiros do relógio, nada  pode travar o sentimento da saudade, ainda que o caminho seja sempre o do futuro.

Manuel Terra

domingo, 15 de julho de 2012

A FACIM




No recanto da minha memória, guardo com muita saudade a imagem do imenso espaço junto à Marginal situado entre o Zambi e o Clube Naval, onde se ergueu a FACIM conhecida como a Feira Agro-Pecuária, Comercial e Industrial de Moçambique e recordo que foi em 1967 que visitei pela primeira vez o certame que trazia até à capital moçambicana, grande número de produtores, vendedores, investidores, importadores, exportadores e compradores oriundos dos quatro cantos do mundo. Lembro-me que a rapaziada do meu bairro, o da Munhuana alinhava em grupo numeroso até às instalação da Feira referenciada por centenas de pavilhões embandeirados, adivinhando-se desde logo as suas origens e era muito sinceramente uma porta de entrada para o conhecimento do Universo. No seu interior era visível gente de fora à procura de projetos ou concretização de negócios, que recriava a grandeza do planeta e suas culturas .Perante o olhar curioso e perspicaz dos mais jovens, tudo o que se deparava era novidade e vai daí que todo o tempo era pouco para se colecionarem panfletos turísticos , lembranças e slides mas nem só de exposições vivia a feira, porque todas as noites eram preenchidas por diversões que iam desde a atuação de ranchos folclóricos , representativos de várias casas regionais em L.M, música moçambicana e cinema ao ar livre. Não faltavam no Parque muitos restaurantes e gelatarias, que faziam as delícias de cada um. Também ficaram na retina, os concursos de pintura para a juventude demonstrar as suas aptidões que era patrocinado pelas Tintas Robbialac em stand adequado e ,as provas de redação que contavam com o apoio da multinacional Parker, aliás muito participadas. Ano após ano cada realização era uma festa, mas hoje toda aquela estrutura foi reduzida a escombros jazendo toneladas de entulho, ferro e madeira testemunho da grande superfície que foi atração de milhares de citadinos, que ali acorriam no mês de Agosto para acolher a tradicional Feira da Facim. Ali vai nascer um projeto urbanístico de 83 mil metros quadrados, que enquadrará  hotéis de luxo e modernos escritórios e que poderá dispor de uma marina. A nova versão da Feira Internacional está localizada em Ricatla já próximo de Marracuene. O progresso dita a sua lei, mas nunca aquela área beijada pela maresia  da Baía do Espirito Santo e cercada por vasto eucaliptal , perdeu a importância nem nunca a irá perder, porque no meu memorial não há lugar a demolições que destruam os momentos inolvidáveis  que a minha geração viveu.

Manuel Terra

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Os machimbombos



Como é gratificante continuar a navegar na rota das recordações, reviver momentos marcantes que vivemos com muita alegria, sinónimo de convívios, passeios, estudo e trabalho. Tudo isto me faz lembrar de forma quase romântica as viagens do meu tempo que foram inúmeras  deslocações nos inesquecíveis  machimbombos  nossos inseparáveis companheiros , substituindo os velhos e esquecidos elétricos( que pena não ter sido criado o museu do elétrico) que tinham uma forma muito peculiar , uma versão very brysti  caraterizada pelos tons vermelhos e de tejadilhos brancos. O hangar municipal situava-se na Av. General Machado (hoje Av. Guerra Popular) mesmo defronte da Escola Técnica Joaquim de Araújo (hoje Escola Estrela Vermelha) e ainda pareço ouvir o som estridente da potente sirene instalada na torre que indiciava o toque a assinalar o meio dia e a primeira hora da tarde. Por volta das cinco da manhã, ainda o sol se espreguiçava e já os transportes públicos cruzavam as artérias dando ritmo à cidade, transportando no seu bojo gente apinhada até ao estribo que se apeava na longa zona portuária da capital. Depois eram os estudantes que de malas nas mãos esperavam pelos machimbombos nas paragens e quando era impossível conseguirem-se sentar, viajavam de pé nos corredores dificultando a vida ao cobrador que a muito custo picotava o bilhete escolar, que custava a importância de 1 escudo. As viagens eram uma simbiose de sonhos e aventuras, sempre bem animadas com os mais jovens a alimentarem namoricos com as moças do banco da frente , onde se sussurravam fins de semana com idas ao cinema, à praia, bailes nas coletividades e ainda havia tempo para se alinharem em abreviaturas as cábulas que davam sempre algum jeito, não fosse a memória pregar alguma partida nos exercícios escolares mais exímios . Os percursos pareciam sempre curtos porque em todas zonas com apeadouro os transportes de viação paravam para saírem e entrarem passageiros com rotinas definidas, gente que por vezes nunca mais se via. Os machimbombos  eram uma autêntica enciclopédia itinerante, onde os catraios da minha geração aprendiam com o teor da conversa de adultos pronunciadoras das vicissitudes da vida, também a serem homens. A campainha toca a assinalar o fim de linha e por agora vou descer no terminal da saudade e paro por momentos para acenar aos  velhos colegas de outros tempos e cumprimentar amigos que por mim passam, mas com angustiante pena de não ter mais o vermelhão e branco rolante para prosseguir o resto da caminhada.

Manuel Terra

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pastelaria Princesa





Continuo a pensar piamente que as recordações, são eternamente fonte de energia que ilumina o subconsciente e que permitem ver à distância lugares encantáveis, que  teimosamente resistem ao envelhecimento. Por momentos dou comigo a pensar na mais emblemática pastelaria, snack e salão de chá de Lourenço Marques; a Princesa por todos conhecida e que ficava no alargado espaço comercial do prédio sito no cruzamento da Av. 24 de Julho e a Princesa Patrícia(hoje Salvador Allende) e daí o nome numa clara homenagem à indigitada noiva de D. Manuel ll, que ainda no tempo da monarquia visitara LM. Ao lado ficava o palácio do presidente da edilidade  e a um passo vislumbrava-se a imponente mansão dos velhos colonos, que contava com uma associação ligada à  natação. Às cinco da tarde  ainda o sol fazia transpirar os transeuntes  e, já à sua esplanada decorada com correntes de ferro  alinhadas em ligeira flecha a pilares de granito trabalhado, chegavam círculos de amigos de longa data que ali marcavam o ponto de encontro, para a habitual cavaqueira selada sempre com um aperto de mão pelos mais velhos e um olhar cúmplice ou um beijo intimo trocado pelos adolescentes. Reinava a boa disposição entre todos os rostos, que tinham pelos os empregados de mesa a estima que lhes era merecida. Por lá trabalhava o pai do famoso e único toureiro negro que se conhece, o moçambicano Ricardo Chibanga que se orgulhava dos feitos do seu filho nas principais arenas da Península Ibérica. Os clientes da bica eram logo presenteados com  o copo de água para se afogar a cafeína, mas haviam os que não prescindiam dos seus apaladados pregos, acompanhados pelas boas marcas de cerveja e o grupo de senhoras conhecidas como  madames do chá das cinco, que faziam questão de tomar a bebida exótica, naquele tempo servida em bule, acompanhado de torrada simples , croissant misto ou barrado pelo melhor jam (compota sul-africana). Os mais jovens quase sempre estudantes ,que circulavam  pela artéria mais central da capital moçambicana, a 24 de Julho a caminho dos estabelecimentos escolares faziam um ligeiro compasso de espera  na secção de confeitaria, observando a vitrina dos bolos e depois era vê-los puxar pela moeda de dois e quinhentos, resgatada em casa em prol de uma falsa compra de um caderno diário ou de uma esferográfica BIC(na moda) para saciar a gulosice definida entre uma nata bem recheada ou a volumosa bola de Berlim e até um avantajado palmier adoçado. A Princesa tinha também o seu salão onde eram servidos bitoques bem condimentados e alguns combinados.  Aos domingos já era da praxe, a fila de automóveis que alinhavam junto à pastelaria para levarem  a tradicional caixinha  de bolos sortidos para o lanche da tarde. Também eu muitas vezes depois do trabalho, me deixava arrastar pelo sentido do desejo até aquele espaço urbano e acolhedor, onde todos eram benvindos  para tomar o café aromático ou deleitados lanches. Hoje nas minhas memórias de vida ainda pareço ouvir o borburinho incessante do cruzamento das palavras, do arrastar das cadeiras e de risos cúmplices dos seus frequentadores, que me lembram o fulgor da Princesa que marcou um tempo ao qual a evocação dará mais ênfase à sua existência.

Manuel Terra

segunda-feira, 12 de março de 2012

Jardim Zoológico



Avivar as memórias, são sempre uma forma de não deixar esquecer todo um tempo que já deixou de existir, recuperar reencontros com o passado marcado por vivência inesquecível, recheada de bons momentos e alegres convívios cheios de animação, mas que com muita saudade os anos não trazem mais. Na cidade das rubras acácias aos domingos havia diversificados entretimentos para todas as idades e na minha retina ainda estão as tardes marcantes passadas no Jardim Zoológico, que ficava situado em pleno Bairro do Jardim já na periferia da cidade. O seu interior contemplava uma imensa superfície bem repovoada de vegetação , predominavam árvores de grande porte que transformavam aquele espaço numa espécie de selva urbana , que dava expressão à grande biodiversidade e qualidade da fauna em Moçambique, onde era possível observar as áreas demarcadas rotuladas de aldeias, habitats concebidos para albergar elefantes, rinocerontes, hipopótamos, leões, leopardos, zebras, impalas, girafas, crocodilos, gorilas, pequenos saguis e outras espécies. Era a oportunidade de ver de perto animais selvagens já indiferentes à presença de público e a aldeia dos macacos fazia as delícias da garotada, com as habituais traquinices dos primatas que davam show nos baloiços mas que sabiam cobrar depois umas bananas habilmente descascadas ou uma dose de amendoins. Porém não era só a atração animal a razão da vasta afluência de visitantes ao Parque Zoo, que comportava no seu interior um campo de equitação onde se realizavam algumas provas hípicas ou o desfile das melhores raças de cavalos, mas muito por arte de um grande artista, que atuava num ringue e que fazia rir a numerosa plateia. Sim todos os garotos da minha geração, devem-se recordar do palhaço Pepito que entre a comédia e o riso, se escondia o caráter de um grande homem. Eram fabulosas as suas cenas sempre retratadas de humor contagiante, que se tornava mais intenso quando chamava para o palco os petizes mais atrevidos; a cada palavra ou gesto a miudagem e porque não os nossos pais ou avós, rejubilavam. Também atuavam no Zoo a dupla de palhaços Emiliano & Ivone. Findos os espetáculos havia sempre lugar à caminhada dos passeantes pelo quiosque da Socigel ,que produzia bons sorvetes para saciar a sede e a gulosice. De facto esses momentos sensitivos que foram tão gratos, dizem-nos quanto fomos felizes por aquelas paragens.


Manuel Terra

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Casa Coimbra






Voltando aqueles belos tempos vividos na Pérola do Índico, as recordações são sempre como buracos sem fundo onde escorrem sonhos, aventuras, fascínios, cheiros e sons de África . Mas há lembranças que jamais poderão ser revistas, porque a vontade dos homens submissa a interesses não compatíveis com a História, com detalhes de uma arquitetura  de várias influências e até de tempos, vai eliminando espaços míticos . É sempre com muita mágoa, quando tudo se esvaia numa espécie de dormência eterna. Há poucos dias fui tocado pela notícia da demolição em plena baixa da capital moçambicana, do edifício Casa Coimbra edificado em 1940 traçado e construído a bom gosto, muito bem preservado  mandado construir por dois súbditos paquistaneses, que a exemplo de muitos outros compatriotas deixaram a chamada Índia inglesa e aportaram a LM e a outros pontos do país, nos primórdios do século XX onde se distinguiram como grandes comerciantes. A Casa Coimbra era um símbolo de referência do comércio local, com secções de alfaiataria, bijutarias, artigos orientais  como também as últimas modas inglesas, perfumes, malas, carteiras e muito mais. Os andares superiores estavam reservados para escritórios de advogados, médicos onde o meu dentista exercia a sua atividade. Situado em pleno coração da baixa citadina, com vistas para o velhinho Edifício Pott( ainda hoje em ruínas, depois do violento incêndio de 1990) contemplava ainda o transformado Scala e o Continental(fechado) sem a resplandecência das românticas esplanadas. No seu lugar será implantado um moderno complexo em forma de torre com 30 andares, por iniciativa do Banco Central de Moçambique. Ainda recordo com saudade os tempos em que os laurentinos nos seus passeios habituais pela Av. da República (hoje 25 de Setembro) paravam não raras as vezes junto ao referido estabelecimento, para fixarem o olhar para o placard eletrónico suportado por torres metálicas, onde se podiam ler os títulos das principais noticias e os casos de última hora. Eram instantes de ligeira acalmia, indiferentes ao trânsito e o bulício da zona. Agora só já restam montões de entulho, numa  amalgama de ferros e cimento, que serão lançados para qualquer lixeira, até que um dia fiquem soterradas todas as essências de mais de sete décadas de existência

Manuel Terra